ATACAR DEFENDENDO
ATACAR DEFENDENDO

Atacar defendendo: Defesa à Zona Pressionante – parte I

 

“... Quando esse país 'se defende', como se costuma dizer (pois isso significa atacar; 'defesa' e 'ataque' não são coisas separadas: são a mesma coisa) e tem início a carnificina...”
Krishnamurti (1965)

 

Para entender o que é a Defesa à Zona Pressionante no Futebol, temos primeiro que conceituá-la, e mais do que isso, temos que conceituar os outros métodos de defesa, para que deixemos claro o que é e o que não é Defesa à Zona Pressionante, descobrir suas vantagens e desvantagens. A partir desse momento poderemos discutir como utilizá-la, treiná-la e evoluí-la!

Durante a primeira parte do artigo iremos discutir o que é Defesa Individual e Defesa Homem a Homem para, na segunda parte, desvendar os conceitos das Defesas à Zona Pressionante.

Defesa Individual como o nome diz é um método de defesa que se pauta, principalmente, na busca pelos ‘indivíduos’, ou seja, os adversários. Mas neste método defensivo cada jogador tem um adversário pré-determinado para marcar; por exemplo, antes de começar um jogo o treinador define claramente que o jogador 5 irá marcar o jogador 10 da equipe adversária.

Ou seja, a referência posicional (referência pela qual nosso jogador define o seu posicionamento ) e a referência alvo de marcação (referência para qual os nossos jogadores ficarão atentos para marcar) são os jogadores adversários pré-determinados, mas não um jogador qualquer, um jogador que foi pré-determinado pelo treinador. Castelo (1996) afirma que “é a lei do um contra um.”.

Se fizermos isso, um dos nossos jogadores terá como objetivo anular o jogador 10, suas referências durante o jogo serão simplesmente o jogador 10. O nosso jogador irá se posicionar de acordo com o jogador 10 (referência posicional) e o nosso jogador terá como objetivo apenas anular este jogador (referência-alvo).

Aparentemente, sacrificamos o jogador 5, já que absolutamente tudo que ele fizer em termos defensivos é consequência do que fez o 10 adversário. E atentem-se ao tempo verbal: o jogador 5 responderá ao que o 10 já fez. Será que reagir à ação do outro é o melhor meio de defender? Deixemos isso para mais tarde.

Este método de defesa dificilmente é utilizado em toda a dimensão do campo, mas é comumente utilizado no futebol brasileiro para anular determinados jogadores que são considerados “mais importantes”.

Como prova disso temos a fala do atacante Lucas do São Paulo após um jogo contra o Santa Cruz, pela Copa do Brasil, ano passado: “Vou ser mais visado, os adversários vão chegar mais firme e sempre pode ter marcação individual. Mas eu tenho de escapar disso aí, me movimentar mais, criar espaço para meus companheiros. Vou precisar fazer alguma coisa.”.

Já na Defesa Homem a Homem, cada um dos nossos jogadores é responsável por uma zona que é determinada pelo treinador e quando um adversário entrar nessa zona ele será de inteira responsabilidade do “dono” da zona.

Como os adversários não são pré-determinados, nossos jogadores não estarão sempre marcando os mesmos jogadores durante toda a partida, mas é muito provavel que alguns jogadores se “enfrentarão” mais vezes, por exemplo, o nosso lateral direito vai marcar, na maioria das situações, o meia direito adversário, e o nosso zagueiro pela esquerda vai marcar, na maioria das vezes, o atacante direito adversário e assim por diante.

Apesar de parecer algo bem diferente da Defesa Individual, este método é, na verdade, bem parecido. Aqui também acontece a “lei do um contra um”, mas ela apenas acontece quando um adversário invade a zona de um dos nossos jogadores. A partir deste momento toda a atenção do nosso jogador volta-se para o adversário direto e ele passa a acompanhá-lo por toda a dimensão da zona.

Amieiro (2004) afirma que “ao ser, simultaneamente, a grande “referência de posicionamento” e a única “referência alvo” de “marcação”, a referência adversário direto é aquela que baliza a Defesa Homem a Homem”. Veja que Amieiro coloca que o adversário direto é a grande referência de posicionamento, mas não única, a zona também é uma referência posicional do nosso jogador, mas a maior é o adversário e por isso acontece o chamado “encaixe” das equipes, ou “jogo de pares”.

Cada jogador tem sua “zona” para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando “encaixar” com o nosso adversário. É o chamado “Jogo de pares”.

Sempre que acontece este “Jogo de pares”, acontece também do nosso jogador estar sempre tentando anular o seu par, mas isto, como dito sobre a Defesa Individual, implica que você está reagindo à ação do adversário, e reagir é estar sempre atrasado em relação a quem já agiu.
No vídeo há um exemplo bem recente desse método de Defesa, que é a defesa do Vasco no jogo contra o Corinthians em 05/08/12.
 


 

Conseguimos observar facilmente que os jogadores do Vasco estão sempre marcando seus adversários diretos, e é esta reação que faz com que a chance de gol seja criada pelo ataque do Corinthians. O volante Nilton, do Vasco, está mais preocupado em seguir o meia Douglas, do Corinthians, do que ocupar o espaço vazio mais importante. E quando o Douglas percebe o espaço e se direciona a ele, o vascaíno não consegue acompanhá-lo.

Além deste problema de reagir à ação do adversário, há tembém outro grande problema neste método defensivo que é: o que acontece quando há dois jogadores na mesma zona? Algum jogador teria que deixar sua zona para ir marcar o adversário, deixando livre o espaço que deveria estar protegido e isso pode desorganizar/desequilibrar nossa equipe.

Há também o fato de que se um dos nossos jogadores for ultrapassado, não há ninguém para lhe dar cobertura, já que cada jogador nosso está preocupado com um adversário direto. Claro que no caso de isso acontecer um dos nossos jogadores iria marcar o jogador com bola, mas deixaria livre o jogador que estava marcando antes, também podendo acarretar em uma desorganização/desequilíbrio da nossa equipe.

 

Atacar defendendo: defesa à zona pressionante - parte II

 

"..com os anos, percebi que gostava mais que me marcassem homem a homem porque me livraria facilmente deles, e ficaria sozinho. Pelo contrário, na marcação à zona, era mais complicado." (Maradona, em 2011)

Nesta segunda parte, iremos debater o que consideramos mais importante e absolutamente fundamental sobre os métodos defensivos, a defesa à zona pressionante.

Na defesa à zona temos referências bem diferentes do que as citadas nos outros métodos defensivos. Segundo Amieiro (2004), aqui a "referência alvo" de "marcação" é o espaço, ou seja, nossos jogadores buscam sempre se posicionar nos espaços mais valiosos. E a grande referência posicional é a bola, o que significa que nossos jogadores se movimentam buscando fechar os espaços mais valiosos (espaços próximos à bola e onde ela não pode entrar).

A zona tem também outra grande referência posicional que são os companheiros, para que com essa referência haja coberturas sucessivas para os companheiros em todas as situações.

Ou seja, quando defendemos utilizando a zona, defendemos coletivamente, fechando diferentes espaços de acordo com a posição da bola e a posição dos nossos companheiros. Deste modo, fazemos com que o adversário tenha dificuldades de colocar a bola nos espaços mais valiosos do campo e oferecendo coberturas sucessivas aos companheiros.

A zona condiciona o adversário a jogar por onde queremos que ele jogue, atraindo-o para locais onde conseguimos imprimir mais pressão na bola (esses espaços chamaremos de zonas pressionantes ou zonas pressing) e condicionar o erro do adversário.

Apesar do espaço mais valioso do campo ser onde a bola está (pois na fase defensiva o objetivo é recuperar a bola), cada treinador deve saber onde seu time tem facilidade para recuperar a bola e condicionar o adversário até este local, onde fará a zona pressing (pressão mais intensa), ou seja, a pressão pode ocorrer nas laterais do campo, na zona intermediária e onde mais o treinador entender que será mais eficaz para sua equipe fazer uma zona pressing.

Quando estamos defendendo à zona, defendemos no nosso próprio desenho tático, logo não há o "jogo de pares" e não existe o tal "encaixe" na equipe adversária, muito pelo contrário, cada equipe tem a sua própria defesa à zona adaptada ao seu modelo de jogo.

Como aqui nós não temos como referências os jogadores adversários, nós mesmos determinamos em quais posições defendemos, se defendemos no 1-4-3-3 ou no 1-4-4-2 ou em qualquer outro desenho tático (coisa que não acontece nos outros métodos defensivos). Dito isso, conseguimos ter posições definidas para os contra-ataques, pois a equipe conhece os espaços que tem de estar ocupados quando a recuperação de bola acontecer e saber que haverá um companheiro no outro espaço. Logo, as transições podem ser feitas de forma muito mais objetivas, enquanto nos outros métodos defensivos nos não sabemos onde nossos jogadores estarão quando recuperarmos a bola, já que ele está preocupado com o adversário e não com o espaço que deveria estar ocupando.

Defender bem para atacar melhor (Amieiro 2004). Essa frase define bem o que se pretende com a defesa à zona, aqui não queremos destruir o adversário, queremos construir o nosso jogo! Defendemos visando o ataque, que, por sua vez, visa o gol. Por isso, o pensamento de simplesmente não levar gols não se enquadra na zona. O objetivo é recuperar a bola. É atacar o adversário mesmo quando estamos defendendo. Tudo tem a ver com tudo.

Neste ponto, entramos em um assunto bastante polêmico e que assola o futebol brasileiro. Na zona, evita-se fazer falta, por quê? Porque aqui acreditamos que defender é um processo em que nós estamos sob controle e não o adversário, o adversário vai para onde deixamos ele ir e não para onde quer ir, pois aqui nós condicionamos as ações. Nós não respondemos a elas, nós as fazemos. Então, quando fazemos faltas, o processo de condução do adversário para locais onde nossa equipe é mais forte é interrompido completamente.

Como visto, se nossas grandes referências são a bola e os nossos companheiros é de se esperar que a equipe defenda de maneira compacta e próxima à bola, já que estamos sempre procurando imprimir pressão ao portador da bola e continuando com as coberturas.

Para conseguir manter esse bloco compacto quando a bola consegue atravessar de um lado ao outro do campo nós utilizamos a chamada basculação, que é o movimento do bloco de um lado para o outro. É a basculação para o lado direito ou para o esquerdo. E note-se como falamos da equipe, sempre como um bloco, não falamos de movimentos individuais para o mesmo lado e sim de um movimento como equipe para o lado ou para o outro, procurando fechar sempre os espaços considerados mais importantes.

Como dissemos anteriormente algumas equipes tem zonas pressionantes, que são zonas onde a pressão exercida na bola será muito maior do que é nas outras zonas do campo. Algumas equipes jogam sem zonas pressionantes. Mourinho (citado por Amieiro) não acredita tanto na eficiência dessas defesas quando diz:

"Quando falamos em futebol de alto nível, eu diria que homem a homem não existe, zonal existe, mas não me convence e a zona pressionante é o futebol de hoje e o futebol de amanhã."

Apesar de conceitualmente a zona pressing parecer ser um método de defesa que obrigatoriamente tem de acontecer na saída de bola do adversário, isso não é necessariamente uma verdade. A zona pressing pode ser alta, intermédia, baixa, pode acontecer no meio ou nas laterais ou em ambos. Ou seja, depende completamente do modelo de jogo da equipe. O fato é que há inúmeras maneiras de utilizar tanto a zona como a zona pressing.

Concluímos, então, que apenas o método defensivo defesa à zona pressing consegue realmente ‘atacar defendendo’, pois influencia os adversários a jogarem por onde queremos que joguem, mantém sempre a estrutura desejada para ter melhores transições e ainda oferece coberturas sucessivas. Mas temos de frisar que há defesas à zona que são ‘passivas’ e não têm zonas de pressão, acabam por ter as referências posicionais iguais (a bola e os companheiros), mas sem zonas de pressão, não impõem pressão na bola e não conduzem o adversário para lugares onde a equipe é mais forte.

Recomendamos agora, como forma de exercício, para compreender o que é uma defesa à zona pressionante, que assistam aos jogos: Barcelona x Real Madrid, em Barcelona, válido pela La Liga, no dia 21/04/12, no qual ambos jogam à zona pressionante, mas quando o assunto é transições rápidas, o Real Madrid é muito interessante para ser observado; e ao jogo Chelsea x Barcelona, em Londres, pela Uefa Champions League, no dia 18/04/12, no qual também ambos jogam à zona pressionante. Mas, no Chelsea temos um grande exemplo de zonas pressing bem definidas (principalmente à frente da área), transições organizadas, basculações e tudo que envolve a defesa à zona pressionante.

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